03/05/2009

Só Saudade

Um dia ‘Era uma vez’

E de novo, lia seu rosto

Na sombra da memória

Sem cheiro, sem gosto

Sem mão, sem ronco

Nem frio, nem calor



Um dia, ‘Era uma vez’

E de novo, me via só

De mãos dadas comigo

Do jeito de dar dó

Num dia de domingo


24/04/2009

Falando sobre Futuro

Fugindo um pouco do tema corrente, sem fugir da proposta do espaço



Dia desses estava lendo um material sobre desenvolvimento sustentável e pensando sobre as maneiras de passar essa bola de uma forma fluída, pra turma mais jovem. Pensar sobre conhecimento sempre me dá calafrios. Explico: aquisição de conhecimento é coisa complexa, porque implica estabelecer relações que vão desde a forma como é transmitido, quem vai receber, qual é o conteúdo e até mesmo a necessidade de transmissão (a quem importa, ao receptor ou ao transmissor?).

Bem, como tinha que dar encaminhamento ao trabalho, eu toquei o barco, mas as pulgas (sempre elas!) atrás da orelha ficaram me perturbando. Eu sei que o modo consumista de funcionamento da nossa macro-comunidade, DEVE ser interrompido. Sei que não temos receptáculo pra tanto lixo, que não temos capacidade pra absorver tanto resíduo tóxico e sei que todo recurso é finito. Isso é o que eu sei, mas quem mais se interessa por isso? Quem mais deveria se interessar? E pra quem não se interessa como despertar a curiosidade sobre o assunto, afinal de contas é questão de sobrevivência.


“Tudo que se vê, pra que crer?
Tudo que se crê, pra que ter?
Tudo que se tem, pra quem?”
Muzak – Zeca Baleiro

Num tempo em que o provisório permanente impera, eu fico pensando em projeto de futuro. - um luxo. Casas de casais novos construídas por sobre a casa dos pais; Puxadinho de quarto pro filho da filha (que já vai fazer 15 anos); o filho que volta pra casa dos pais depois de um casamento de 20 anos que se acabou; o garoto que precisa comprar o PSII e pra isso convence a mãe que o muro do quintal pode ficar pra depois; Ah! Sem contar o clássico elástico na torneira que substitui, por anos, a carrapeta gasta.


Esse quadro todo não me escapa quando penso em desenvolvimento sustentável. O Micro e o Macro. Eu posso falar de buracos na camada de ozônio (e isso nem mais assusta), posso mostrar “A história das Coisas”, posso dizer que daqui a 30 anos o planeta pode evoluir pra um quadro terminal. Quem se importa? Mais casas-pavê (camada+camada+camada) serão construídas; mais puxados serão montados; brinquedos hi-tech novos ainda serão mais importantes; mais torneiras serão consertadas com elástico.


Seria bom, por agora, deixar claro que não falo de perfeição, me queixo sobre a falta de projeto de futuro. Isso me preocupa. Como falar sobre o problema da espécie, sobre rios, matas, animais, sobre a decadência da experiência humana neste planeta, quando na vida micro, na experiência diária, na rotina, não existe futuro?


Ponto de pausa pra um trecho de Encontro Marcado, do Fernando Sabino:


"De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro".


Eu ainda continuo com dúvidas. Eu ainda continuo me perguntando. Eu ainda continuo... Não sei se isso é educar, se é transmitir conhecimento, se é mobilização pra sobrevivência da espécie e do planeta, ou se é qualquer coisa que ainda não vi. O que sei é que entendo que falar sobre desenvolvimento sustentável é necessário. Sei também que pra falar sobre os rumos do planeta temos de falar sobre futuro, no nível macro, e no nível micro. Sei que viver sem projetar um futuro, é apostar numa salvação que não virá. Ter esperança é bom, viver esperando, é iludir-se.


Citei o Fernando Sabino porque esse trecho sempre me socorre quando penso sobre o que fazer diante dos grandes desafios da nossa era. É certo que o resultado de trabalhar o futuro não chega rápido, décadas de imediatismo forjado pro consumo não desaparecem rápido assim. Então, que esse seja o momento de começar (e de novo), que todo dia seja o dia de pensar/fazer o futuro. Esse é o meu tom. Eu busco a resiliência e encontro vida.

Pra terminar, um trecho de uma música que me emociona há décadas...


“E o futuro é uma astronave/ Que tentamos pilotar/ Não tem tempo, nem piedade/ Nem tem hora de chegar/ Sem pedir licença/ Muda a nossa vida/ E depois convida/ A rir ou chorar.../ Nessa estrada não nos cabe/ Conhecer ou ver o que virá/ O fim dela ninguém sabe/ Bem ao certo onde vai dar/ Vamos todos/ Numa linda passarela/ De uma aquarela/ Que um dia enfim/ Descolorirá...”
Aquarela - Toquinho / Vinicius de Moraes / G.Morra / M.Fabrizio

Por hoje é só pessoal!

Em tempo: Esse formato de postagem foi uma homenagem-inspiração para um amigo querido. Beijo, Chuchu!

22/04/2009

Mouco


Tudo que tens a me dizer

Faça-o ao pé do ouvido.
Querido, eu duvido
Que meu coração
Não te ouça...

18/04/2009

Versos do Amor Distante



Quando pude, meu amor, eu não quis
Quando quis, meu amor, eu não pude
Qual descompasso nos fará feliz
a posse, o beijo, a urgência, a atitude?

É possível que posse não seja passível
Porque há mentira no domínio amoroso
Será a mentira, todo: monstro invisível!?
O inferno seria um descanso gracioso

Beijei a lâmina que me guiaria a mim
Na dor do corte, enxerguei meu retrato
Começo da consciência; da vida, o fim...
O beijo foi o ponto que exclamou o fato

Urge ter-te ao colo, como pingente!
Mas o compasso de espera me tortura
Distorcido, o tempo: intervalo que dura!
Saudade simula ou o tempo é que mente?

Não dá. Faça diferente, mude!
Importa pouco a latitude e longitude
A ação rumo a utopia: eis a beatitude!
Fazer agora o que antes não pude
Sobreviver ao amor e à distância
Viver além da geografia e da ânsia
Superar minha casca e romper-me feliz.

* Parceria com Andrié Keller (beijo, amigo!)

11/12/2008

Documento sem título



Definitivo. Dê fim a isso ou aquilo. Imperativo, da ordem do quê? A instância - que obriga a finalizar e formalizar o estado da coisa - por agora grita. As idéias que brincam com o adiamento, olham curiosas e arteiras, tal qual criança que argumenta e esperneia antes de ir pra cama. Definitivo. Sisuda urgência imposta. Dever. Sem mais para o momento.

04/12/2008

Canto para (certo) romance

“Goodbye Heartbreak, dont look for me, ´cause I dont need you now”
Goodbye Heartbreak
- Lighthouse family


Era tarde, mas nem tanto. Não era tarde pra descobrir um novo amor, mas um novo amor descoberto não deveria ser pego desprevenido tão cedo. E tudo que ela queria era ter alguém que recebesse como um presente essa cachoeira de água doce e salgada, que brota no peito e tem ritmo de suspiro. Mas o destinatário não estava em casa. O pacote voltou.

E quando voltou, era tarde. A devolução não veio com selo de esperança, mas com carimbo de “devolver ao remetente”. Ela entendeu o recado. O pacote era dela (de novo) pra oferecer a quem quiser receber. Isso foi bom, mas não foi doce, que bem entendam, foi amargo como café sem açúcar. Revigorante. O carimbo do correio fez sentido, a devolução fez sentido. Mas era tarde. Tarde pra ter esperança naquele amor.

E é cedo também. Cedo pra um novo amor. As águas ainda teimam na mesma direção. É preciso tempo pra que a cachoeira se acostume com a continência, e depois com um novo curso. Agora é tempo de re-usinar essa água, de voltar para si. É hora de deixar correr pra dentro. É hora de pés no caminho. É hora de chorar o romance certo, batizando-o de duvidoso.

Uma piada antiga diz que um moço olha uma casca de banana na calçada e se queixa: “Lá vou eu escorregar de novo!”. Pro coração dela, era tarde demais pra isso.

11/11/2008

O Dia de todos os Santos


Na espera das noites

Nas esferas da Corte

Eu aguardo




Era uma vez um sobrado. O imóvel era antigo, uma herança de muitas gerações. No espaço de alguns tanto metros conviviam vários personagens, um mosaico de tipos com características extremas, mas essa diversidade tinha algo em comum, todos eles eram também o sobrado.


O sobrado tinha reformas, era uma nova versão dele mesmo, com tintas diferentes, azulejos coloridos e cerâmicas modernas, mas era ainda um sobrado. Um triste sobrado em dias nublados. Um sobrado aconchegante nas férias com visitas. Um simpático sobrado pra ser vizinho. E ainda era um sobrado.


Os moradores do sobrado eram mantidos sob severa vigilância, as vezes era permitido que saíssem em pares e trios - O Louco, O Bobo e O Ajuizado ou ainda O Romântico e O Ponderado. Vez por outra um conseguia escapar sozinho, geralmente o discreto e invisível Moderado, mas não ficava assim por muito tempo, logo um companheiro de cárcere o alcançava. Difícil conter todos personagens, Impossível ficar longe do sobrado-prisão-lar por muito tempo, e eles sempre voltavam.


O imóvel, Os móveis. Os personagens. O contexto. Tudo co-existia em pacífica desordem, em constante conflito silente, numa tensão implodida que nunca jamais ninguém viu. As rachaduras nas paredes e muros, o ferrugem das dobradiças e cercas e o capacho gasto de "welcome" eram as testemunhas da vida do sobrado. O síndico calava todo grito, toda rebelião, todo manifesto, ele próprio um rebelde às avessas, temendo cumprir seu papel e ansiando aprovação do chefe que nunca veio.


Triste sobrado de grama verde. Doce sobrado de cores pálidas. Seus moradores sabem que participam de um conto. O síndico sabe que o administrador se demitiu. Mas aí vem o medo de ser livre. E o que vem depois que o portão se abrir e não tiver Sobrado mais nada?