Um dia ‘Era uma vez’
E de novo, lia seu rosto
Na sombra da memória
Sem cheiro, sem gosto
Sem mão, sem ronco
Nem frio, nem calor
Um dia, ‘Era uma vez’
E de novo, me via só
De mãos dadas comigo
Do jeito de dar dó
Num dia de domingo
Espaço de contar - com pontos - o que acontece por aqui - por aí - por todo lugar
Um dia ‘Era uma vez’
E de novo, lia seu rosto
Na sombra da memória
Sem cheiro, sem gosto
Sem mão, sem ronco
Nem frio, nem calor
Um dia, ‘Era uma vez’
E de novo, me via só
De mãos dadas comigo
Do jeito de dar dó
Num dia de domingo

Definitivo. Dê fim a isso ou aquilo. Imperativo, da ordem do quê? A instância - que obriga a finalizar e formalizar o estado da coisa - por agora grita. As idéias que brincam com o adiamento, olham curiosas e arteiras, tal qual criança que argumenta e esperneia antes de ir pra cama. Definitivo. Sisuda urgência imposta. Dever. Sem mais para o momento.

Na espera das noites
Nas esferas da Corte
Eu aguardo
Era uma vez um sobrado. O imóvel era antigo, uma herança de muitas gerações. No espaço de alguns tanto metros conviviam vários personagens, um mosaico de tipos com características extremas, mas essa diversidade tinha algo em comum, todos eles eram também o sobrado.
O sobrado tinha reformas, era uma nova versão dele mesmo, com tintas diferentes, azulejos coloridos e cerâmicas modernas, mas era ainda um sobrado. Um triste sobrado em dias nublados. Um sobrado aconchegante nas férias com visitas. Um simpático sobrado pra ser vizinho. E ainda era um sobrado.
Os moradores do sobrado eram mantidos sob severa vigilância, as vezes era permitido que saíssem em pares e trios - O Louco, O Bobo e O Ajuizado ou ainda O Romântico e O Ponderado. Vez por outra um conseguia escapar sozinho, geralmente o discreto e invisível Moderado, mas não ficava assim por muito tempo, logo um companheiro de cárcere o alcançava. Difícil conter todos personagens, Impossível ficar longe do sobrado-prisão-lar por muito tempo, e eles sempre voltavam.
O imóvel, Os móveis. Os personagens. O contexto. Tudo co-existia em pacífica desordem, em constante conflito silente, numa tensão implodida que nunca jamais ninguém viu. As rachaduras nas paredes e muros, o ferrugem das dobradiças e cercas e o capacho gasto de "welcome" eram as testemunhas da vida do sobrado. O síndico calava todo grito, toda rebelião, todo manifesto, ele próprio um rebelde às avessas, temendo cumprir seu papel e ansiando aprovação do chefe que nunca veio.
Triste sobrado de grama verde. Doce sobrado de cores pálidas. Seus moradores sabem que participam de um conto. O síndico sabe que o administrador se demitiu. Mas aí vem o medo de ser livre. E o que vem depois que o portão se abrir e não tiver Sobrado mais nada?